https://www.youtube.com/watch?v=X6LCC5ASGCo&list=PLlyE7EjZzJqpIa5R47aT4bL37DncpkfKx&index=4&ab_channel=VíctorDiz
9) O Soldado Amarelo, para octeto [FINAL] 2023-1.pdf_O_Soldado_Amarelo_para_octeto_FINAL_2023-1.pdf)
A composição "O Mundo Coberto de Penas" no seu primeiro movimento, intitulado "O Soldado Amarelo", foi elaborada a partir de um processo criativo que incluiu uma sessão inicial de improvisação de 20 minutos, seguida pela seleção das melhores partes. Essa improvisação inicial foi fortemente influenciada no tango de Astor Piazzolla. Sob a orientação do professor Igor Maia, surgiu a ideia de criar um "tango jogado pela janela", uma técnica inspirada pelo compositor Gérard Pesson, na qual elementos estigmatizados são fragmentados até se tornarem, de certa forma, irreconhecíveis.
A peça encontra fundamentação no livro "Vidas Secas", escrito por Graciliano Ramos. A obra literária retrata um cenário de penúria e opressão, no qual os personagens lidam constantemente com a escassez de vocabulário, resultando em frases curtas e frequente uso de interjeições e onomatopeias. O silêncio é uma constante e a solidão do sertão assume uma dimensão metafórica. Nesse contexto, Graciliano Ramos deixa claro que a falta de palavras dos personagens não se deve apenas à escassez, mas também ao receio de enfraquecer sua força interior. Por exemplo, quando o protagonista Fabiano sente vontade de cantar, ele se cala para não diluir sua força. Quando ele se depara com o soldado amarelo em um lugar ermo, relembrando a violência sofrida, ele hesita em matá-lo, pois não deseja se tornar alguém murchado pela vida, concluindo que não vale a pena se destruir por causa de "uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres". Fabiano opta por preservar sua própria força, deixando o opressor viver. A relação entre a música e o contexto descrito no livro reside na dialética entre a bruteza e a beleza, uma dança representada pelos constantes movimentos cromáticos e em tensões que se resolvem em alguns trechos específicos, mas breves. A música evoca uma atmosfera violenta, que encontra correspondência com o soldado amarelo no enredo literário.
Além da influência do tango de Piazzolla, a peça também apresenta algumas referências de "Petrouchka", de Igor Stravinsky. A forma como Stravinsky lida com contraposições de texturas, por exemplo, é um elemento presente em "O Mundo Coberto de Penas". Na composição, as ideias são constantemente bombardeadas por intervenções, como se não tivessem a chance de se desenvolverem em paz, sempre surgindo algo mais violento e bruto no meio. No entanto, há momentos de calmaria, como o solo de oboé - em contraponto com o fagote -, que é recorrentemente invadido pela fanfarra completa - que remete claramente ao militarismo e ao soldado amarelo mencionados anteriormente.
PROCESSO
A composição teve seu início como uma prática de improvisação, com longos momentos de gravação que posteriormente foram refinados, selecionando-se as melhores ideias, todas dentro da linguagem característica do tango. A escolha do tango como base inspiradora se deve à sua conexão com a dança e à sua natureza melancólica, porém profundamente violenta. Além disso, é um gênero que não foge ao contexto latino-americano e brasileiro, como se percebe nas composições de "tangos" de Francisco Mignone ou mesmo Ernesto Nazareth.
Como mencionado anteriormente, em "Petrouchka", Igor Stravinsky explora bastante a abordagem da música popular e do folclore, e foi justamente essa perspectiva que tentei trazer para esta composição, só que em um contexto latino-americano e metafísico, ao invés do cenário russo original. A intenção não era retratar especificamente o nordeste, pois o objetivo era criar uma extensão metafórica do livro, ampliando seu significado simbólico. O uso do título "O Mundo Coberto de Penas" e desta composição musical foram concebidos como formas de signo, que expandem todo o ideal de solidão, violência e melancolia presentes na obra literária. Mesmo diante das condições externas adversas, busca-se transmitir a esperança e a força – da vida à deriva.
A música foi concebida, a princípio, seguindo um método estruturado. Inicialmente, foi composta em uma abordagem fragmentada, dividida em seções distintas, com uma ênfase significativa em variações e repetições de materiais rítmicos e melódicos específicos. O contexto harmônico não recebeu tanta atenção, pois não foi o foco principal da composição. A intenção não era criar uma obra atonal, modal ou tonal, embora contenha elementos de cada uma dessas abordagens, mas sim concentrar-se no controle da rítmica, nas texturas e na orquestração/instrumentação.
No cerne dessa composição, pelo menos em minha perspectiva, encontra-se a interação entre os instrumentos e as dinâmicas que são estabelecidas. Essa conversa musical é o aspecto mais relevante e valorizado. Uma análise mais minuciosa revela esses diversos elementos:
ANÁLISE:
A peça possui um centro gravitacional em torno da nota Lá, com ênfase na tonalidade de Lá menor. Explorei a ideia de que a tonalidade de Lá menor desempenha um papel fundamental na estruturação e organização da composição, influenciando a direção melódica e harmônica da obra musical. Observa-se que a presença de motivos cromáticos repetidos e variados estabelece uma conversa entre os instrumentos, cuja tendência cromática sempre converge para a nota Lá.

Além dos motivos cromáticos que convergem para a nota Lá, observamos um padrão recorrente ao final desses trechos em Lá maior (dominante). Esses trechos geralmente são seguidos por uma suspensão com a nota C# indicando um A7. Essa suspensão temporária adiciona um momento de tensão e expectativa antes de retornar à “tonalidade” principal de Lá, contribuindo para a dinâmica e estruturação da composição, que continua a se sustentar nas repetições.

Após uma análise mais aprofundada, identifica-se uma passagem musical de particular interesse em um ponto subsequente da composição. É importante destacar que essa semelhança não foi intencionalmente planejada durante o processo criativo, mas sim percebida posteriormente em relação à introdução de "Tango for Orchestra" de Igor Stravinsky. A descoberta dessa conexão entre as duas composições despertou um interesse adicional, pois evidencia possíveis influências e referências que podem ter sido incorporadas de forma inconsciente. A música é um campo vasto e multifacetado, onde a influência e a intertextualidade são elementos intrínsecos à sua existência.